TIMOR

adeus timor.
olho as paredes brancas do quarto onde dormi durante dois meses e recordo o primeiro pensamento, ah, degredo!, e penso agora nos anarquistas portugueses que eram para aqui enviados, afastados do clima europeu.
aqui certamente não havia lugar para os ideais anarquistas.
aqui a natureza tem a pujança das bestas, a força brutal.
penso agora nos búfalos que chapinham na lama cinzenta dos charcos de Timor. e penso nas pessoas que estive pronto a amar aqui, a luinha, cujos sonhos protegi e que desejei à minha maneira, G. que tem um corpo macio e o olhar tocado por uma breve loucura, TZ. com os gestos de um animal ávido de amor e os olhos mansos ou tristes como os de um búfalo.
penso em A. e nas dobras que o seu corpo faz e na vivacidade do seu pensamento e na imensa confiança pelos homens.
e penso em N., como uma árvore, com raízes profundas e ramos que se agitam à mais leve brisa.
e de novo nos anarquistas que perdiam os sonhos a favor do sono.
amanhã é feriado, amanhã é o dia em que vou partir e custa-me uma vez mais dizer: adeus timor.
Estive pronto a amar os meus alunos e conheci-me melhor por ter segurado o corpo convulsivo de um deles, por ter descoberto essa comoção no discurso em que me tratavam por excelência. a minha resposta foi cristã, vi lágrimas nos olhos deles. Estive pronto a amar M., tão frágil e tão forte, que tem para comigo o gesto terno de um mestre e é tão sábio nas suas incertezas.
Estive pronto a amar JP., o seu olhar vivo, a sua rudeza das areias da Gafanha, o modo como ele ama as meninas timorenses, como um malai a deixar de o ser. e invejo-o, como invejo C., que passa os fins de semana a consertar uma casa em Manatuto e a dinamizar a pequena biblioteca e a emprestar dólares aos necessitados e que vive a vida frugal dos simples. como um búfalo branco.
e penso qual seria o animal que eu seria aqui. e que animal seria cada um deles. e todos os outros com quem me cruzei, cada uma das pessoas que estive pronto a amar, as pessoas que passaram por esta terra, pelo dorso do crocodilo, do avô crocodilo. e penso no respeito que tudo isto deve merecer.
penso no murete sobre a baía de Díli, onde passei horas diferentes e iguais. penso em Ataúro, o último dos degredos, a ilha escura que está ali. e de novo nos meus alunos. penso que o sono me abandonou definitivamente e sei que as olheiras se formam à volta dos olhos e que amanhã não vou querer despedir-me.
penso em ti, timor, até na fealdade de certas partes.
vi aldeias onde as crianças chapinham com os porcos nos mesmos charcos lamacentos e vi umbigos salientes e olhares febris. eu masquei a hareca e o betel para sentir o sangue nas gengivas e em vez disso tive por instantes o sopro do crocodilo no centro do cérebro. fiquei mal disposto, nauseado, tive cólicas e diarreias, febres, pesadelos e insónias, vi insectos esmagados nas paredes brancas do meu quarto, longas centopeias calcadas no chão da casa, borboletas pretas como a noite visitaram-me os sonhos. mas uma vez mais timor tocou o fundo do meu coração.
penso na carta que F., tirou para mim, por mim, e no que deu, naquilo que eu sei. e penso que talvez volte. um dia.
um dia talvez volte.
adeus timor.
olho as paredes brancas do quarto onde dormi durante dois meses e escuto o canto matraqueado dos répteis.

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a montanha

Não há uma montanha. Há dezenas delas, protuberâncias singulares no dorso do bicho: Tata Mai Lau, a mais alta, o Mundo Perdido, outras onde se abrem grutas “lulik”. Há imensas por todo o território. Oferecem imagens magníficas da ilha. De certo modo, apesar da singularidade de cada monte, existe a Montanha como conceito. A montanha é verdadeiramente a pátria “maubere”. É certamente um lugar mais perto do céu, onde a humanidade é talvez mais autêntica na sua relação com a terra e onde os ancestrais falecidos estão ainda paradoxalmente vivos.
Na verdade, morrer ali não´parece tão definitivo.
Viver, ali, é talvez estar mais suspenso sobre a gravidade, ter a vida mais em suspensão. Estar mais longe da indignidade.




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